Guia prático para cães em quarentena!
Guia prático para cães em quarentena!
De um dia para o outro, e sem nada que o fizesse prever, vemo-nos numa situação de quarentena, situação completamente nova para a maioria de nós.
De um dia para o outro, vemo-nos numa situação de isolamento social, de confinamento, de stress, de medo, de ansiedade, de depressão e muito mais!
De um dia para o outro, a nossa vida ficou virada do avesso e sem data prevista de retorno à normalidade. Normalidade essa que poderá não ser a mesma que tínhamos até agora.
Isto é um início de artigo um tanto ou quanto depressivo, mas guess what? É a realidade que uma grande percentagem de cães tem, e continuarão a ter sabe-se lá até quando...
Os cães são seres sencientes, ou seja, têm a capacidade de sentir sensações e sentimentos de forma consciente do que lhes acontece e do que os rodeia.
Todos os cães que vivem no quintal do seu tutor, todos os cães que não sabem o que é um passeio ou uma brincadeira, todos os cães que AINDA vivem acorrentados a uma casota, em completo isolamento social e confinamento. Todos estes cães vivem numa eterna quarentena bem pior do que a nossa!
Nós, mesmo que confinados às nossas casas, continuamos a ter uma miríade de coisas para fazer para nos entretermos e trabalho para fazer. Mas e o que têm estes cães?
Esta pode parecer uma analogia exagerada e descabida mas acreditem que não é. Nós, profissionais de comportamento animal, somos chamados diariamente para ajudar a resolver problemas comportamentais sérios, que nada mais são do que a consequência dos estados emocionais provocados por estas situações.
Assim sendo, achamos muito oportuno fazer esta analogia. Talvez esta experiência nos traga outra visão e perspetiva sobre este assunto.
Agora que o conceito já está nas vossas cabeças, vamos tentar deixar para trás a maior parte desta nuvem negra e partir para coisas mais animadas e interessantes :)
Esta altura é perfeita para:
- “Libertarem” o vosso cão da possível quarentena e isolamento em que ele possa estar a viver!
- Os cães que têm uma vida interessante e feliz, possam continuar a tê-la, independentemente das condições atuais do seu humano.
- Criar laços mais fortes com o tempo de qualidade que lhes podemos dar nesta fase.
- Aprender mais sobre os cuidados a ter com os nossos animais e as suas necessidades.
- Aprender mais sobre comportamento e treino de cães. Aprender uns truques e comandos simples que podem ser muito úteis no dia a dia, principalmente para ajudar a reforçar uma boa comunicação inter-espécie.
- Dar largas à imaginação de talentos escondidos para fazer brinquedos interessantes para os nossos cães.
- E principalmente, é a altura perfeita para passar um bom tempo com os animais que escolhemos para partilhar a nossa vida :)
Então, neste artigo, queremos partilhar algumas dicas e cuidados que achamos importantes para terem com o vosso cão nesta altura de quarentena humana. Vamos falar sobre:
- Passeios e respetivos cuidados em tempo de pandemia mundial;
- Estimulação física e mental com exercícios, jogos e brincadeiras para manter a sanidade mental de cães e humanos;
- Dicas de como prevenir possíveis transtornos emocionais nos nossos cães, como a ansiedade por separação, quando chegar a hora de voltarmos às antigas rotinas de trabalho
Passeios
Neste tópico não queremos falar sobre a importância dos passeios, (temos um artigo sobre este assunto que podem rever aqui) mas sim de como os fazer numa altura tão inusitada como esta.
Em primeiro lugar, o principal cuidado a ter nesta altura tem a ver com higiene, quer a nossa, quer a dos nossos cães.
Em segundo lugar, o cuidado a ter com o distanciamento social, não é válido só para nós mas para os nossos cães também, principalmente no que diz respeito ao contacto com estranhos na rua.
Assim sendo, as dicas que vos queremos deixar para os passeios e os respetivos procedimentos durante e após o mesmo, são as seguintes:
2ª A medida anterior também vai facilitar esta, que diz respeito ao tentar evitar o contacto do cão com superfícies suscetíveis de estarem contaminadas, como: ecopontos e caixotes de lixo, postes, portões e afins. Basicamente superfícies passíveis de serem muito manuseadas pelos humanos.
Privilegiem zonas mais rurais e pinhais por exemplo, onde existe menor tráfego de pessoas, animais e objetos manuseados por humanos.
3ª Outra dica importante é não deixar que terceiros toquem no vosso cão, nem que seja para uma festinha. Primeiro, essa aproximação ao nosso cão, vai obrigatoriamente implicar uma aproximação a nós também. E em segundo lugar, porque o vírus poderá permanecer no pêlo do nosso cão o tempo suficiente para que, ao tocarmos nele logo de seguida, podermos também nós ter contacto com este agente infecioso.
Este conselho é válido no inverso também, nesta altura evite a aproximação e contacto com animais de terceiros pelos mesmos motivos.
4ª No seguimento da dica anterior, também é aconselhável não permitir a aproximação dos nossos cães a outros cães. Embora não existam estudos suficientes sobre esta matéria, de contágio entre animais e de animais-humanos, os cães podem ser portadores mecânicos do vírus nas suas patas, focinho, pelo acessórios, trelas, coleiras, peitorais, etc
5ª Leve o seu cão sempre à trela, não só por uma questão de segurança mas também de ser muito mais fácil por em prática as sugestões mencionadas acima.
6ª Na chegada a casa, para além das etiquetas de higiene válidas para si, não se esqueça do seu cão. Devemos higienizar o nosso cão, mesmo que durante o passeio se tenha tido todo o cuidado.
As patitas do nossos cães andaram em contacto com o solo, onde alguém pode ter cuspido uns minutos antes de o nosso cão ter pisado, por exemplo.
E embora não andemos propriamente a lamber o chão de nossa casa, nem as patas dos nos cães, eles poderão partilhar certas superfícies, que usamos com regularidade, como a cama, o sofá, etc.
À entrada de casa, deverá ter tudo o que for necessário para proceder a esta limpeza antes de o cão entrar.. Devem-se limpar as patas (almofadinhas e entre os dedos), barriga, focinho, dorso, bem como os acessórios, como a trela, o peitoral ou a coleira.
Para isso podem usar água e sabão, seja numa bacia ou apenas uma toalha molhada nesta mistura, secando com outra logo de seguida. Podem também usar produtos próprios para limpeza de animais, que poderão ser mais práticos, como toalhetes e sprays de uso veterinário.
Importante! No caso dos nossos animais, lembrem-se de nunca usar álcool ou produtos derivados. Podem usar no entanto, toalhetes com clorexidina.
Está provado que o sabão consegue desagregar a “cápsula” protetora deste vírus, que nada mais é do que uma camada lípidica (gorduras) inativando-o. A água encarrega-se de levar os restos.
A higiene é essencial na prevenção contra a propagação do vírus quer em humanos quer nos animais.
Depois destes passeios “higiénicos”, saudáveis e tão necessários para os nossos cães, (e hoje ainda mais para nós também) vamos falar de outras atividades que devem fazer com os vossos animais, de forma a estimulá-los física e mentalmente.
Estimulação física e mental - Exercícios, jogos e brincadeiras -
Este é outro aspeto muito importante na vida dos nossos cães. Já era antes da pandemia, continua a ser durante esta crise e vai continuar a ser de extrema importância depois disto tudo passar! Portanto, nunca é demais relembrar esta dica e sugerir estratégias para colocarem em prática.
Os momentos dos passeios podem e devem ser uma boa estimulação física e mental, mas dentro de 4 paredes também é possível através de:
1º Brinquedos dispensadores de comida em vez de taças, e usar parte da alimentação diária do seu cão para treino. Nos brinquedos dispensadores de comida podemos usar a própria ração, como também podemos fazer recheios mais saborosos e “difíceis” de extrair. Este exercício fornece horas de diversão e prazer ao seu animal.
Existem várias receitas para usar em brinquedos ocos, como o Kong, seguindo algumas estratégias como a imagem ilustrativa
Na falta destes brinquedos, que tal dar uso à imaginação?
E como bónus muitos cães adoram também o som das garrafas ao brincarem com elas !
Abaixo deixamos algumas ideias de ingredientes que podem usar para rechear os vossos brinquedos ocos:
Ingredientes para misturas secas
- Legumes cortados em pedaços
- Salsicha de peru
- Queijo
- Legumes cortados em pedaços
- Salsicha de peru
- Queijo
- Frango desfiado, cozido apenas em água (sem sal)
- Ração
- Fruta cortada aos pedaços
- Snacks (biscoitinhos secos)
Ingredientes para misturas húmidas
- Saquetas de comida húmida
- Atum
- Iogurte natural sem açúcar e sem lactose
- Banana triturada
- Boiões de comida de bebé
- Papas de bebé
- Ração amolecida em água morna
2º Renovando o stock de brinquedos do seu animal aproveitando os talentos escondidos de artesanato :)
Uma breve pesquisa na internet sobre brinquedos DIY para animais e/ou sobre formas divertidas de alimentar o seu cão, trazem inúmeros resultados fantásticos, com uso de materiais tão simples como caixas de ovos, rolos de papel, meias e garrafas de água, por exemplo.
Fazer algum exercício físico enquanto brincamos com o nosso cão, é sem dúvida uma forma de gastar energias, melhorar a saúde de forma geral, criar laços entre tutor e animal, e acima de tudo, desligar a ficha do momento confuso e stressante deste confinamento!
A maioria dos cães adoram bolas e atirar bolas pode ser um ótimo exercício. O frisbee também é um bom exemplo.
Apanhar bolas de sabão não é só para as crianças. Experimentem esta forma diferente para porem o vosso cão a mexer :)
Outra brincadeira que aconselhamos e que ajuda o humano a manter a sua forma física, (principalmente quanto maior for o porte do cão) é jogar tug-of-war (cabo de guerra). Esta brincadeira, para além de muito intensa e estimulante para ambos, pode ser muito útil para ensinar o cão o sinal de “larga”, usando técnicas de troca.
Aqui, o segredo é escolher as brincadeiras que mais animam o vosso cão, mas também experimentar alternativas novas que se podem tornar muito interessantes.
4º Esta altura é perfeita para ensinar alguns truques e treino de obediência básica ao vosso cão. Saber comunicar com o nosso companheiro é muito gratificante, útil no dia a dia e ajuda a prevenir alguns problemas comportamentais.
Existem muitos tutoriais e dicas on-line para experimentarem. Podem contudo, procurar treinadores capazes de vos ajudar com comportamentos mais complexos (remotamente e pelos meios digitais nesta fase).
Atenção! Aconselhamos a terem sentido crítico na escolha da informação e dos profissionais. Optem sempre por metodologias positivas, que privilegiem o bem estar do vosso amigo. Se o treino não for divertido para ambos ou for doloroso ou incómodo, então não irá ser “eficaz”.
Como evitar a ansiedade por separação no retorno à rotina
O que é a ansiedade por separação?
Entende-se por síndrome de ansiedade por separação (SAS), o conjunto de respostas fisiológicas e comportamentais, exibidas isoladamente ou em associação, por um dado animal quando na ausência de uma figura de apego.
Os sinais comportamentais mais frequentemente relacionados à SAS são: reatividade, vocalização excessiva, eliminação de fezes e / ou de urina em locais inadequados, comportamentos destrutivos, auto-mutilação, auto-limpeza excessiva, entre outros.
Mesmo que o seu cão nunca tenha demonstrado este problema, pode vir a apresentá-lo de diversas formas e intensidade após este período de contacto quase permanente e tão longo.
Este deve ser o ponto mais importante deste artigo, porque com certeza que muitos cães irão passar por esta situação. Depois de tantas semanas confinados em casa com o seu tutor, 24h/24h, cheios de atenção e interação, de um dia para o outro irão deparar-se novamente com uma realidade diária de solidão de 8h ou mais...
Esta questão é de extrema importância e deve ser evitada com alguns cuidados básicos:
- Evitar alterar muito as rotinas, como horários de refeição, brincadeiras e passeios.
- Evitar aumentar drasticamente a interação e brincadeira com o vosso cão, comparativamente ao que conseguem fazer em altura de trabalho. Claro que esta situação vos permite estarem muito mais presentes e devem aproveitar esse tempo para dedicar ao vosso amigo, mas não exagerem. Lembrem-se que quando não puderem dispensar tanto tempo com ele, vai-lhe ser muito mais custosa a perda.
- Os passeios deverão ser semelhantes aos que conseguiam prestar antes, no que diz respeito à quantidade e duração. No máximo dos máximos façam apenas mais 1 passeio do que fariam habitualmente.
- Não permitam que o vosso cão vos siga constantemente por todo o lado e a toda a hora.
- Evitem passar o tempo todo na companhia do vosso animal. É importante que de alguma forma, consigam tirar algumas horas por dia separados . Aconselha-se cerca de 3h por dia, no mínimo.
Essas 3h não precisam de ser consecutivas, podem ser períodos menores, mas o total diário deverá ser igual ou superior a esse tempo.
É certo que quando voltarem a trabalhar serão muito mais horas, mas manter algumas horas diárias de distanciamento irá ajudar, sobremaneira, o vosso animal a relembrar e apreciar esses momentos sozinho.
Coisas simples, como manter o vosso animal num compartimento diferente na hora da sesta, ou enquanto se entretém com um brinquedo recheado, são alguns exemplos.
Estes são alguns exemplos, dicas e cuidados, que queríamos partilhar convosco sobre estes assuntos.
Cada caso é um caso que depende das circunstâncias de cada um, mas colocar em prática estas dicas, ajudará a passarem este tempo de uma forma mais agradável e a terem um retorno à normalidade muito menos custoso.
Esperamos que esta situação possa trazer momentos fantásticos entre tutores e os seus animais, e que estas dicas possam ser muito úteis para que o possam fazer de uma forma segura, preventiva e acima de tudo ANIMADA :)














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